Zeferina: a mulher negra, ancestral e real que continua a viver na memória do povo baiano – e suburbano

Por José Eduardo Ferreira

Crescer nas proximidades do Parque São Bartolomeu é viver outra experiência de cidade. A perspectiva do presente está enraizada em uma percepção de luta ancestral, de um lugar que apesar de sua importância histórica, foi abandonado, mas mesmo assim resiste na memória dos seus moradores.

Desde pequenos fomos educados para respeitar as matas, as tradições e a sacralidade deste parque, pois nele a nossa memória está resguardada. Também nele está resguardada a memória de uma grande mulher, Zeferina, cujo nome é uma referência da luta pela liberdade.

Para falar de Zeferina é preciso ir à História, aos documentos que de fato trouxeram e eternizaram a história dessa mulher que lutou contra os portugueses quando das batalhas pela independência da Bahia.

Neste sentido o autor que trouxe à tona essa história foi o professor João José Reis, no livro “Rebelião Escrava no Brasil: a história do Levante dos Malês em 1835” (Companhia das Letras, São Paulo, 2003), cuja leitura é fundamental para conhecer essa personagem. Exatamente entre as páginas 101 e 105, o historiador traça um perfil de Zeferina, que vale ser lido por seu valor histórico e ancestral para as comunidades do entorno do Parque São Bartolomeu, outrora denominado Matas do Urubu, em 1826:

“Em Urubu foi presa, a muito custo, uma extraordinária mulher, Zeferina, que armada de arco e flecha enfrentou os soldados. Durante a luta comportou-se como verdadeira líder, animando os guerreiros, insistindo para que não se dispersassem. O presidente da província, num elogio involuntário, referiu-se a ela como “rainha”, título que deve ter ouvido dizer que ela carregava entre os rebeldes. Zeferina mais tarde declarou que seus súditos esperavam a chegada de muitos escravos de Salvador, na véspera de Natal, ocasião em que planejavam invadir a capital para matar os brancos e conseguir a liberdade. Ela também revelou que a maioria deles eram nagôs, tanto escravos como libertos. Neste caso, um candomblé existente nas matas de Urubu era provavelmente nagô.(…) Parece que Urubu era um desses locais da periferia de Salvador onde quilombo e candomblé se misturavam. O próprio nome do  lugar poderia estar relacionado à presença de um ou mais templos africanos em torno dos quais os urubus abundavam, atraídos pelos restos de animais sacrificados a deuses e ancestrais africanos.(…)” (Reis, 2003, p.102-103).

Essa descrição ressalta, de fato, a presença e determinação feminina no território suburbano já em períodos ancestrais, o que gerou, no tempo, a centralidade do papel da mulher enquanto protagonista das mobilizações em prol dos direitos fundamentais das comunidades da periferia de Salvador.

Esse protagonismo é resignificado na atualidade e em décadas passadas nas lutas pela moradia, educação, saúde, transportes, redução da violência contra seus filhos, muitos deles assassinados, assim como a constituição de espaços de mobilização comunitária, movimentos sociais, artísticos e culturais.

Neste momento em que os direitos das mulheres são postos em questão no Congresso Nacional, caberia aos promotores da revitalização do Parque São Bartolomeu um memorial destinado a essa e tantas histórias de mulheres guerreiras que continuam a promover o desenvolvimento de suas comunidades apesar das situações adversas, pois o reconhecimento do passado ajuda a revitalizar e promover o presente em direção a um futuro mais inclusivo e menos desigual.

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Em tempo, em setembro de 2011 foi encenada no Centro Cultural Plataforma a peça Zeferina: a rainha de Urubu (Direção de George Bispo e Márcio Bacelar e produção do Coletivo de Investigação Cênica e Coletivo de Produtores Culturais do Subúrbio) cuja importância se deve ao fato de atualizar a presença e a discussão em torno de Zeferina. Essa iniciativa mostrou como é importante ter uma referência deste porte em nossas comunidades, pois o passado, quando conhecido, ajuda a empoderar e mudar o presente.

Um pensamento sobre “Zeferina: a mulher negra, ancestral e real que continua a viver na memória do povo baiano – e suburbano

  1. José Mário disse:

    Excelente documento histórico

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